Um em um milhão

Entre becos e vielas, encontramos o morador Ari da Silva, 40 anos, com as suas gomas de tapioca, queijos coalho, feijões brancos e vermelhos, rapaduras e outras especiarias típicas do Nordeste. Quem conhece o dono da barraca, que fica no Largo do Boiadeiro, nem imagina o que ele já teve que passar para conseguir chegar até aqui.

O primeiro emprego foi como bóia fria, em Pernambuco. Ele ficava longe da família metade do ano, por causa da produção da cana-de-açúcar. Nos outros seis meses, ele voltava para a casa, em Campina Grande, na Paraíba. Apesar de trabalhar muito, o salário não era satisfatório. “Passei seis longos anos da minha vida trabalhando muito e ganhando pouco, em média 10 reais por dia”, desabafa.

Ari vende diversas especiarias em sua barraca (Foto: Fabricio Souza)

Ari vende diversas especiarias em sua barraca (Foto: Fabricio Souza)

Cansado da jornada desgastante e do baixo salário, Seu Ari decidiu se mudar para o Rio de Janeiro em busca de uma vida melhor. A adaptação em um novo local foi difícil, mas com a ajuda de uma tia, que morava na Rocinha, ele começou a trabalhar no comércio da família: uma barraca de especiarias. O negócio se tornou o sustento e a herança dele depois que a tia morreu.

Hoje, 12 anos depois, a barraca de especiarias continua prosperando, trazendo para os moradores da Rocinha um pouco do Nordeste. Entre um e um milhão, Ari conquistou seu espaço e sua clientela com toda sua humildade e simpatia. Com a venda dos produtos nordestinos, o comerciante conquistou a tão sonhada casa própria e consegue sustentar a esposa e as duas filhas.

Caminho do Boiadeiro é um lugar histórico

No início da Rocinha, na época da fazenda Quebra-Cangalhas, toda a região onde respectivamente se situa o Largo do Boiadeiro pertenceu a um só dono, conhecido como Sr José Boiadeiro. Como o nome já diz, o ‘dono das terras’ criava muito gado na região, andava a cavalo, e corria atrás de seus bois com o laço na mão, daí a originalidade do apelido. A região, que na escritura pertencia oficialmente a família Castro Guidão, era uma grande chácara com muitas plantações, pés de frutas, criações de animais, e tinha até um córrego de água doce.

Nos tempos de hoje, no Caminho do Boiadeiro, estão alojados três grandes bancos, o Itaú (antigo Banerj), a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil. Até alguns anos atrás, dona Terezinha, viúva de Zé Boiadeiro, tocava sozinha um enorme armazém no coração do Largo do Boiadeiro, hoje, um conhecido centro comercial dos moradores da Rocinha.

Aos domingos, uma grande feira com produtos nordestinos é montada no local. Ela é considerada a segunda maior do Rio e só perde para a Feira São Cristóvão. A feira aos domingos é também um grande ponto de encontro das pessoas que moram nos sub-bairros da favela, animados pelo som de violeiros e repentistas.

Faça um comentário

Leave a Reply